Espiritualidade, Psicologia Positiva e Relações Saudáveis: uma força interior que sustenta a vida
Cada ser humano é único. Cada um de nós carrega um conjunto de características pessoais que nos define, que nos diferencia e que molda a forma como vivemos, nos relacionamos e enfrentamos a vida. Eu também tenho várias dessas características — e uma delas, sem dúvida, é um dos meus pontos fortes: a minha fé.
A minha fé não é grande nem pequena. Não é maior nem menor do que a de outras pessoas. É simplesmente a minha fé. Íntima, pessoal, construída ao longo do tempo e profundamente enraizada em quem eu sou.
O meu interesse pelo impacto da espiritualidade no ser humano aprofundou-se quando estava a realizar uma formação em Psicologia Positiva, em Madrid. Importa esclarecer que este aprofundamento aconteceu em paralelo com a formação, e não durante a mesma. Foi o meu gosto pelo conhecimento — outra das forças humanas em que pontuo alto — que me levou a querer compreender melhor como a espiritualidade potencia o ser humano e qual o seu impacto nas relações interpessoais e conjugais. ( Só por curiosidade a minha tese de Mestrado em Madrid foi justamente sobre o Amor)
A espiritualidade como força de carácter
Um dos autores que mais estudei neste percurso foi Martin Seligman, um dos principais nomes da Psicologia Positiva. Segundo Seligman, as forças de carácter são qualidades psicológicas positivas que se refletem em pensamentos, emoções e comportamentos, contribuindo para o bem-estar, o sentido de vida e o florescimento humano.
Entre essas forças está a espiritualidade, entendida como a capacidade de encontrar significado, propósito e ligação a algo maior do que nós mesmos — seja através da fé, da transcendência, de valores ou da relação com Deus.
A investigação científica confirma que esta força tem impacto real na vida dos casais. Estudos demonstram que a espiritualidade contribui para maior satisfação conjugal, felicidade subjetiva e estabilidade emocional.
Por exemplo, um estudo publicado no Journal of Religion and Health mostrou que casais que partilham uma identidade religiosa ou espiritual apresentam níveis mais elevados de satisfação conjugal. A espiritualidade comum funciona como um elemento de coesão, promovendo valores partilhados, maior compromisso e melhor gestão de conflitos (Bartkowski et al., 2021).
Outro estudo, na revista Spiritual Psychology and Counseling, concluiu que a espiritualidade atua como mediadora entre a satisfação conjugal e a satisfação com a vida. Ou seja, quanto mais espiritualizado é o casal, maior tende a ser o impacto positivo da relação no bem-estar global dos parceiros (Kasapoğlu & Yabanigül, 2018).
Cuidar de si para depois cuidar do outro
Existe uma frase — talvez cliché, mas profundamente verdadeira — que ouvi num dos muitos conteúdos sobre desenvolvimento pessoal e relações interpessoais que consumo:
“Vou cuidar de mim para poder cuidar também de ti.” Em vez de ” Vou cuidar de ti e esquecer-me de mim”.
Nada substitui o trabalho interior. Nada compensa a ausência de conexão consigo mesmo.
Como dizem as Escrituras:
“De que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?”
“Pode um cego guiar outro cego?”
A verdadeira força está em ser inteiro, em ser completo. O outro não vem para nos salvar, preencher vazios ou reparar feridas não cuidadas. O outro vem como um plus, não como uma muleta emocional.
A ciência reforça esta visão. Um estudo longitudinal publicado no NCBI / PMC mostrou que níveis mais elevados de felicidade conjugal estão associados a melhor saúde mental ao longo da vida, protegendo contra ansiedade e depressão (Dush et al., 2008). Relações felizes são reflexo de indivíduos emocionalmente trabalhados.
Qualidade da relação e felicidade
Não é o simples facto de estar numa relação que gera felicidade, mas sim a qualidade dessa relação. Um artigo clássico publicado no The Journal of Socio-Economics concluiu que relações conjugais satisfatórias estão associadas a níveis mais elevados de felicidade subjetiva, reforçando que apoio mútuo, sentido de pertença e compromisso são determinantes para o bem-estar (Stutzer & Frey, 2006).
Em estudos realizados em contextos lusófonos, verificou-se igualmente que o bem-estar subjetivo e os afetos positivos estão diretamente ligados à satisfação conjugal, confirmando que equilíbrio emocional e sentido de vida refletem-se na forma como os parceiros vivem a relação (Scorsolini-Comin & Santos, 2011).
Espiritualidade em casais reais
Claro que, além de ler e estudar, também me inspiro em casais de carne e osso. Casais reais — sem idealizações — que transmitem harmonia, maturidade emocional e felicidade possível.
E curiosamente (ou talvez não), todos eles têm algo em comum: pelo menos um dos parceiros vive uma fé profunda, genuína e estruturada.
O mesmo acontece com pessoas que me rodeiam. Pessoas humanas, imperfeitas, que erram, falham, têm dias maus, sono, sede e fragilidades — mas que possuem algo inabalável: um pilar interior firme.
Uma espiritualidade viva.
Uma conexão íntima com Deus.
Algo particular, próprio.
Costumo dizer que não sei explicar totalmente, mas todas as pessoas que conheço com uma fé bem estruturada são formidaveis, resilientes e abertas ao crescimento. Há nelas um brilho no olhar que não se apaga — mesmo nos dias difíceis.
Entre os casais que admiro, destaco, por exemplo, Sr. Marcelino Bento e Dona .Sónia Bento, que mostram que é possível viver uma relação real, com desafios, mas sustentada por valores, espiritualidade e compromisso com o crescimento individual e a dois.
A espiritualidade, quando vivida de forma autêntica, não nos afasta da realidade — aproxima-nos dela.
Fortalece o indivíduo, amadurece as relações e cria bases sólidas para um amor mais consciente, livre e saudável.
…Penso que só surge uma conexão realmente forte quando nos encontramos inteiros, vivendo a nossa fé com um coração aberto e livre, permitindo-nos acreditar e deixar-nos surpreender…Carolina Machado Borges, 2026
Referências (APA – 7.ª edição)
Bartkowski, J. P., Xu, X., & Levin, M. L. (2021). Shared religious identity, religiousness, and marital satisfaction. Journal of Religion and Health, 60, 3891–3912. https://doi.org/10.1007/
Dush, C. M. K., Taylor, M. G., & Kroeger, R. A. (2008). Marital happiness and psychological well-being across the life course. Journal of Family Issues, 29(2), 211–234. https://doi.org/10.1177/
Kasapoğlu, F., & Yabanigül, A. (2018). Marital satisfaction and life satisfaction: The mediating effect of spirituality. Spiritual Psychology and Counseling, 3(2), 177–195. https://doi.org/10.12738/spc.
Scorsolini-Comin, F., & Santos, M. A. (2011). Relações entre bem-estar subjetivo e satisfação conjugal. Psicologia: Teoria e Pesquisa, 27(4), 421–429.
Stutzer, A., & Frey, B. S. (2006). Does marriage make people happy, or do happy people get married? The Journal of Socio-Economics, 35, 326–347. https://doi.org/10.1016/j.


