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Quando Um Dá e o Outro Toma: As Armadilhas da Falta de Reciprocidade

                                                                     

                                                                        Quadro Grécia Nina

Uma relação assimétrica é aquela em que existe um desequilíbrio de poder, afeto, esforço, interesse ou controle entre ti e a outra pessoa envolvida. Esse desequilíbrio pode ser subtil ou muito evidente.

Exemplos de assimetrias que podes viver:

  • Afetiva: tu amas mais, dás mais de ti, cuidas mais.

  • Financeira: és tu quem sustenta ou és sustentado e isso é usado como forma de controlo.

  • De poder ou autoridade: alguém manda, tu obedeces (ex: chefe autoritário, familiar controlador).

  • De esforço emocional: só tu tentas manter a relação, resolver conflitos, abrir diálogo.


O que há de nocivo nas relações assimétricas?

As relações assimétricas podem trazer-te sofrimento emocional, baixa autoestima, sensação de manipulação ou até abuso emocional. Quando esse desequilíbrio se mantém por muito tempo, podes começar a sentir-te invisível, usado(a) ou preso(a) numa dinâmica injusta.

Consequências que podes notar:

  • Frustração constante.

  • Sensação de solidão, mesmo estando com alguém.

  • Perda de identidade própria.

  • Dependência emocional.


Como podes equilibrar a simetria nas tuas relações?

Nem toda assimetria é negativa. Às vezes, é natural tu dares mais em certos momentos. O problema surge quando a falta de reciprocidade se torna crónica. Para buscares mais equilíbrio nas tuas relações:

  1. Fala abertamente sobre o que sentes, precisas e não toleras.

  2. Olha para dentro e entende os teus próprios limites e desejos.

  3. Cria acordos claros com quem te relacionas.

  4. Exige e oferece respeito mútuo.

  5. Desenvolve a tua autonomia emocional – a tua felicidade não deve depender apenas do outro.


Como podes lidar com relações assimétricas nos contextos afetivo, familiar, social e profissional?

  • Afetivo: quando o teu parceiro decide tudo e tu te anulas. → Fala sobre isso, procura diálogo e, se necessário, ajuda terapêutica.

  • Familiar: quando os teus pais ou familiares te invalidam. → Aprende a estabelecer limites e a comunicar com firmeza.

  • Social: quando só tu procuras os amigos. → Observa os padrões e afasta-te do que não te faz bem.

  • Profissional: quando um chefe te desvaloriza ou colegas te exploram. → Posiciona-te com assertividade e procura apoio.


O que é a reciprocidade afetiva para ti?

A reciprocidade afetiva é a troca mútua de sentimentos, cuidados e atenção, sem cobranças, mas com equilíbrio e presença verdadeira.

Não confundas com:

  • Uma troca de favores (“dei, então tens de devolver”).

  • Manipulação emocional.

  • Simpatia superficial disfarçada de carinho real.


Como podes implementar a reciprocidade afetiva de forma saudável?

  • Escuta o outro com o coração, não só com os ouvidos.

  • Valida os sentimentos de quem está contigo.

  • Oferece apoio sem esperar algo em troca.

  • Permite-te também receber e pedir, não apenas dar.

  • Constrói relações baseadas no respeito, verdade e presença.

Diversos autores abordam as relações assimétricas e a reciprocidade afetiva sob diferentes perspetivas. Jessica Benjamin, por exemplo, destaca a importância da mutualidade e do reconhecimento mútuo nas relações, defendendo que o equilíbrio só é possível quando ambos se veem como sujeitos ativos. Pierre Bourdieu analisa as relações sociais assimétricas a partir do poder simbólico, mostrando como as desigualdades se reproduzem mesmo em contextos afetivos. Já Martin Buber propõe relações autênticas do tipo “Eu-Tu”, onde há presença, escuta e reciprocidade real, em oposição a relações utilitárias. Bell Hooks reforça que o amor saudável exige compromisso, respeito e partilha de poder — elementos centrais para a verdadeira reciprocidade afetiva. Esses autores ajudam-te a compreender que relações saudáveis se constroem com equilíbrio, respeito e reconhecimento mútuo.


Reciprocidade afetiva não é espelhar gestos, é reconhecer o valor do outro e fazer com que ele se sinta visto, sem precisar pedir.

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