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O Espaço Entre o Fim e o Início


Madrid, maio 2026


Faz a tua parte e depois silencia — a vida sabe como se revelar. Carolina Alexandra Machado M. Borges

Há um momento silencioso entre o fechar e o abrir.

Já me encontrei várias vezes, em diferentes etapas da minha vida, nesse estágio. Talvez a palavra que melhor o descreva seja limbo — um lugar neutro, um estado de suspensão.

É a fase em que não avanço nem recuo.
Não forço, não intervenho.
Simplesmente observo a vida a seguir o seu curso.

É um momento que me provoca uma tensão subtil, quase impercetível.
Tudo o que dependia de mim já foi feito: as decisões foram tomadas, as palavras foram ditas, os gestos realizados.

E depois disso, o foco deixa de estar na ação.
Passa para a resposta da vida.

Esse espaço é desconfortável.

Porque ficamos perante o impacto do que já semeámos, sem ainda conhecer o resultado. Mesmo quando a intenção foi clara e genuína, existe sempre o mistério do desfecho.

É esse o espaço.

Um espaço que quase ninguém valoriza — mas que é sagrado.
Não é fim. Ainda não é começo.

É intervalo.

A psicologia descreve este período como uma fase de transição. William Bridges chama-lhe “zona neutra” — um território intermédio entre o que terminou e o que ainda não emergiu. É aqui que ocorre a reorganização psíquica.

E essa reorganização não é visível.

Como já partilhei com a minha colega Elizete, trata-se de um processo profundamente silencioso. De fora, nada parece acontecer, mas por dentro há uma revisão contínua: antigos padrões são questionados, respostas automáticas perdem força, novas formas de interpretar a realidade começam a ganhar espaço.

Não é uma luta. É um desmantelar gradual.

Estudos sobre o término de processos terapêuticos mostram que esta fase intermédia é essencial para a integração emocional. É nela que a experiência é reorganizada, que a narrativa pessoal é revista e que o significado do vivido começa a consolidar-se (Råbu et al., 2013).

Ou seja: este espaço não é vazio.
É processamento.

Investigação sobre transições de vida também indica que pausas conscientes entre fases favorecem maior clareza identitária e adaptação mais estável ao novo. O cérebro não salta diretamente do fim para o recomeço — ele precisa de tempo para integrar.

Este sábado não é sobre correr para o próximo passo.
É sobre criar espaço.

Porque novos ciclos não entram em vidas ocupadas por experiências ainda não digeridas.
Eles precisam de presença. De clareza. De disponibilidade interna.

Às vezes, abrir começa por admitir.
Reconhecer o que poderia ter sido diferente.
Aceitar o que já não pode ser alterado.

Só assim se abre espaço real para o novo.

Este momento desconfortável faz parte.

E talvez o mais importante seja isto:
o que parece pausa, na verdade, é reorganização.

O que parece vazio, é transição.

E o limbo… talvez não seja um lugar de ausência.
Talvez seja o lugar onde o novo começa a formar-se em silêncio.


📚 Referências Bibliográficas

Bridges, W. (2004). Transitions: Making Sense of Life’s Changes. Da Capo Press.

Råbu, M., Binder, P.-E., & Haavind, H. (2013). Negotiating ending: A qualitative study of the process of ending psychotherapy. European Journal of Psychotherapy & Counselling, 15(3), 274–295.

Schlossberg, N. K. (2011). The Challenge of Change: The Transition Model and Its Applications. Journal of Employment Counseling.

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