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Amor de todos os dias…


Amor de todos os dias…

 

Existe uma frase popular que diz que “o Natal é quando o homem quiser”. E eu acredito que o dia do amor também deveria ser assim. O amor não devia ter uma data fixa — devia festejar-se todos os dias.

O tema do amor é fascinante. Muito se tem escrito, falado e estudado sobre ele, desde a filosofia clássica à neurociência contemporânea. Onde existe amor, algo se transforma. Como se lê: “permanecem a fé, a esperança e o amor, mas o maior de todos é o amor”.
É pela força do amor que o ser humano se supera, anda mais uma milha, acredita quando todo o cenário à sua volta parece inacreditável.
C’est la vie… c’est l’amour.

E já que por estes dias o amor é celebrado por aqui e por ali, aproveito e  deixo também a minha quota-parte.


Os vários tipos de amor

A literatura filosófica e psicológica descreve o amor como um fenómeno plural — não existe um único amor, mas várias formas de amar, que podem coexistir ao longo da vida.

Inspirados na filosofia grega e aprofundados mais tarde pela psicologia, encontramos:

  • Eros — o amor romântico e apaixonado, associado ao desejo, à atração e à intensidade emocional.
  • Philia — o amor da amizade, da parceria, do companheirismo e do respeito mútuo.
  • Storge — o amor familiar, profundo e protetor, ligado aos vínculos parentais.
  • Ágape — o amor altruísta, incondicional, que não exige retorno; muitas vezes associado ao cuidado, à compaixão e à transcendência.

O psicólogo John Alan Lee, no século XX, expandiu esta visão e descreveu estilos de amor que ajudam a compreender as dinâmicas relacionais modernas:

  • Ludus — o amor lúdico, leve, brincalhão, marcado pela sedução e pelo prazer do jogo.
  • Pragma — o amor maduro e pragmático, construído com compromisso, valores partilhados e decisões conscientes.
  • Mania — o amor obsessivo, caracterizado por insegurança emocional e dependência.
  • Philautia — o amor por si próprio, que pode ser saudável (autoestima, autocuidado) ou desequilibrado quando se transforma em narcisismo.

Estas formas de amor mostram que amar não é um estado único e fixo, mas um processo dinâmico que envolve emoção, cognição, corpo e relação.


Amor 2.0 e os micro-momentos de conexão

Uma das abordagens científicas mais interessantes sobre o amor contemporâneo vem da psicóloga Barbara L. Fredrickson, no seu livro Amor 2.0.

Fredrickson propõe uma mudança de paradigma: o amor não é algo que “se tem”, mas algo que acontece em micro-momentos. Ela chama a isso micro-momentos de ressonância de positividade — breves instantes em que duas pessoas se conectam emocionalmente de forma genuína.

Segundo a autora, esses momentos:

  • ativam os neurónios-espelho, permitindo sentir o outro;
  • estimulam a libertação de oxitocina, hormona associada ao vínculo e à confiança;
  • envolvem o nervo vago, regulando o sistema nervoso autónomo, reduzindo o stress e promovendo segurança emocional.

Ou seja, o amor tem impacto direto no corpo e no sistema nervoso. Não nasce apenas de grandes declarações, mas de pequenos gestos diários: um olhar atento, um sorriso partilhado, uma escuta verdadeira.


Amor próprio e relações conscientes

Outro autor que acompanho há algum tempo é Lucas Scudeler, que trabalha profundamente o tema do amor próprio como base para relações saudáveis.

A sua mensagem central é clara: não se constrói um relacionamento equilibrado sem antes existir uma relação minimamente saudável consigo próprio.
Amor não é dependência emocional, nem carência disfarçada de romantismo.

Entre os princípios que ele reforça estão:

  • desenvolver autoconsciência emocional;
  • desconstruir crenças disfuncionais sobre amor;
  • assumir responsabilidade emocional;
  • cultivar coerência interna antes de exigir do outro.

Como gosto de dizer: às vezes, as mudanças mais simples e aparentemente insignificantes são as que criam o maior impacto. E muitas dessas mudanças começam dentro.


Hábitos que potenciam a felicidade no casal

A ciência das relações — com destaque para investigadores como John Gottman e Sue Johnson — tem mostrado que a satisfação conjugal não depende de gestos grandiosos, mas de hábitos consistentes.
Falando de momentos vivos em casal…
Em janeiro, no dia 21, estava num daqueles nossos habituais “pequenos-almoços saudáveis entre amigas”. E houve algo em que as três concordámos: um pequeno-almoço com o nosso companheiro — amor, esposo, marido, xuxu, ou seja lá o nome carinhoso que uses (troca aqui pelo teu ) — é algo simples, mas muito especial.
Claro que nem toda a gente consegue fazê-lo todos os dias, mas este hábito, para mim, é um dos melhores a manter num relacionamento.

Deixo aqui alguns hábitos mais relevantes:

  • Responder às tentativas de conexão do parceiro (os chamados bids for connection);
  • Comunicação emocionalmente segura, com validação e empatia;
  • Expressão regular de gratidão;
  • Rituais simples, como refeições juntos, caminhadas, pequenos-almoços partilhados;
  • Presença real, não apenas física, mas emocional.

Pessoalmente também valorizo muito o silêncio partilhado. Estar em silêncio com alguém, em paz, sentindo acolhimento e tranquilidade, para mim é o auge de um relacionamento saudável. Um silêncio que acalma, que aproxima. Quem nunca viveu momentos assim?


Cada um vive o amor à sua maneira. Não existem decretos nem normas universais. O que pretendo com este texto é apenas abrir espaço para reflexão, mostrar que existem muitas formas de amar — e que todas podem ser vividas com mais consciência.

Não falo aqui de contos de fadas nem de fantasias. Falo de amor vivido, sentido e construído no dia a dia.
E termino assim, porque… o saber não ocupa lugar  e o amor também não.

Eu não sei… mas nestas 39 voltas ao sol já dadas, dei-me conta de que tudo o que é feito com amor dura mais. No entanto, como diz a minha mãe: “teu coração é teu mestre”.


Referências (APA)

Fredrickson, B. L. (2013). Love 2.0: How our supreme emotion affects everything we feel, think, do, and become. Hudson Street Press.

Fredrickson, B. L. (2016). Positivity. Penguin Random House.

Gottman, J. M., & Silver, N. (2015). The seven principles for making marriage work. Harmony Books.

Gottman, J. M., & Levenson, R. W. (2000). The timing of divorce: Predicting when a couple will divorce over a 14-year period. Journal of Marriage and Family, 62(3), 737–745. https://doi.org/10.1111/j.1741-3737.2000.00737.x

Johnson, S. M. (2008). Hold me tight: Seven conversations for a lifetime of love. Little, Brown and Company.

Johnson, S. M. (2019). Attachment theory in practice: Emotionally focused therapy (EFT) with individuals, couples, and families. Guilford Press.

Lee, J. A. (1973). Colours of love: An exploration of the ways of loving. New Press.

Porges, S. W. (2011). The polyvagal theory: Neurophysiological foundations of emotions, attachment, communication, and self-regulation. W. W. Norton & Company.

Porges, S. W. (2022). Our polyvagal world: How safety and trauma change us. W. W. Norton & Company.

Scudeler, L. (2019). 101 + 1 princípios para não desistir do amor. Citadel Editora.

Scudeler, L. (2021). Dependência emocional: O perigo de viver um relacionamento baseado na carência. Citadel Editora.

Algoe, S. B., Haidt, J., & Gable, S. L. (2008). Beyond reciprocity: Gratitude and relationships in everyday life. Emotion, 8(3), 425–429. https://doi.org/10.1037/1528-3542.8.3.425

 

Reis, H. T., & Shaver, P. (1988). Intimacy as an interpersonal process. In S. Duck (Ed.), Handbook of personal relationships (pp. 367–389). Wiley.

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