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O som das portas e janelas a fechar é o eco de novos começos…



                                                                Madrid, maio 2026

O som das portas e janelas a fechar é o eco de novos começos…
Entre a dor opressiva da estagnação e a dor libertadora do crescimento, escolho evoluir. – Carolina Alexandra Machado M. Borges , 2026

Há ciclos e ciclos.

Há ciclos que se fecham de forma natural. Terminamos um projeto e, quase sem perceber, outro começa. Encerramos uma etapa e a própria vida abre uma nova porta — às vezes para algo completamente diferente do que imaginávamos.

Mas existem outros ciclos.

Ciclos que exigem esforço. Persistência. Coragem.

Ciclos que precisam de ser encerrados mesmo quando o coração quer deixar uma fresta aberta. Mesmo quando tudo em nós pede mais uma tentativa.

E aqui entra algo interessante: a ciência confirma que os finais raramente são abruptos. Estudos longitudinais mostram que, antes do fim de uma relação ou de uma fase importante, há um declínio progressivo na satisfação e no envolvimento emocional. O fim não começa no momento da decisão — começa muito antes, de forma silenciosa.

O que sentimos não é fraqueza. É um processo.

Segundo a psicologia, terminar uma etapa ativa mecanismos de regulação emocional. Existe ambivalência. Parte de nós quer avançar; outra parte quer preservar o que foi significativo. Esta tensão interna é natural e estudada no contexto da psicoterapia como parte do processo de “negociação do fim”. Encerrar implica reorganizar o nosso mundo interno.

E então surge a pergunta:

O que é, afinal, fechar um ciclo?

Fechar um ciclo não é apagar memórias.
Não é fingir que não existiu.
Não é endurecer o coração.

Fechar um ciclo é reconhecer que algo cumpriu a sua função na nossa vida — e que continuar a insistir pode impedir o crescimento.

A teoria do apego explica que, quando encerramos relações ou fases importantes, o nosso sistema interno precisa de se reorganizar. Há uma espécie de “recalibração emocional”. Aquilo que antes era fonte de segurança deixa de estar presente, e o nosso cérebro precisa de aprender a encontrar estabilidade de outra forma.

Talvez seja por isso que dói.

Mas a dor não é sinal de erro. É sinal de transição.

Eu tenho um ritual quase inconsciente. Ironia do destino ou não, sempre que fecho um ciclo e inicio outro, vou a Madrid. Seja por poucos dias, seja por temporadas mais longas, algo acontece dentro de mim naquele lugar.

Ninguém se apercebe, mas internamente há um processo profundo a acontecer.

A distância permite-me fazer aquilo que a investigação psicológica chama de “processamento reflexivo”: ganho perspetiva, reorganizo narrativas internas, avalio emoções. Ressignifico situações. Tomo consciência das minhas reações fisiológicas. Escuto-me.

Dou-me tempo.

E isso é essencial.

Estudos sobre o término em psicoterapia mostram que encerramentos bem elaborados — onde há consciência, reflexão e significado — tendem a promover maior integração emocional e crescimento pessoal.

Cada pessoa tem o seu espaço de introspeção.
Para mim, Madrid é esse lugar estruturante.

Ali confronto-me. Analiso. Questiono. Aceito.

Fechar ciclos é permitir a saída de pensamentos antigos para dar espaço a novos. É aceitar que comportamentos, atitudes e rotinas que antes eram funcionais deixam de ser adequados ao contexto atual.

E isso dói.

A mudança traz dor. Traz perda. Mas também traz renovação. Esperança. Nova visão.

A ciência confirma algo poderoso: o ser humano adapta-se. A reorganização emocional após uma perda ou transição não só é possível como, muitas vezes, conduz a níveis mais profundos de maturidade e clareza identitária.

Um novo ciclo inicia-se. Sei que trará momentos de angústia. Mas também trará revelação e ação.

Novos caminhos abrem-se — com pedras, desertos, miragens e oásis.

Faz parte.

Doer vai doer sempre.

Mas entre a dor da estagnação e a dor do crescimento, escolho crescer.

Porque fechar ciclos não é perder.

É evoluir.

                                                               


Referências Bibliográficas

Bühler, J. L., & Orth, U. (2024/2025). Terminal decline of satisfaction in romantic relationships: Evidence from four longitudinal studies. Journal of Personality and Social Psychology.

Råbu, M., Binder, P.-E., & Haavind, H. (2013). Negotiating ending: A qualitative study of the process of ending psychotherapy. European Journal of Psychotherapy & Counselling, 15(3), 274–295.

da Silva, A. N., Ferreira, J. F., Conceição, N., Velho, C. V., & Vasco, A. B. (2022). Termination in psychotherapy: Contributions of an integrative metamodel. Journal of Psychotherapy Integration.

Attachment reorganization following divorce: Normative processes and individual differences. (2019). Current Opinion in Psychology, 25, 124–130.

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