
@Silvia Murça
Não É Só Amor: É Responsabilidade
Foi ainda em Salamanca que ouvi este termo pela primeira vez, numa conversa com algumas colegas sobre relações humanas. Estávamos a falar de dinâmicas interpessoais quando uma delas comentou:
“Pero Carol, en eso lo que pasó fue una falta de responsabilidad afectiva.”
Olhei para ela e pensei: checkmate — foi mesmo isso.
O termo “responsabilidade afetiva” é bastante claro e explícito, e define-se como a capacidade de reconhecer, respeitar e cuidar dos sentimentos do outro nas relações em que há envolvimento emocional.
O que é responsabilidade afetiva?
A responsabilidade afetiva consiste em agir com empatia, clareza e coerência nas interações emocionais. Não se trata de controlar ou se anular pelo outro, mas sim de comunicar com sinceridade, estabelecer limites e não alimentar ilusões ou expectativas infundadas.
Ela exige uma postura ética e consciente diante do impacto que as nossas palavras e atitudes podem ter nos sentimentos alheios.
Pautas para treinar a responsabilidade afetiva:
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Comunicação clara e honesta: Dizer o que se sente e o que se espera, com respeito.
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Empatia ativa: Colocar-se no lugar do outro e considerar seus sentimentos.
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Coerência entre discurso e prática: Não dizer uma coisa e fazer outra.
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Respeito aos limites do outro e aos seus próprios.
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Reconhecimento de erros e disposição para reparar danos emocionais.
* Aparentemente, parece-te obvio todo que te mencionei pero…
Para além do amor: responsabilidade afetiva em vários contextos
A responsabilidade afetiva não se aplica apenas aos relacionamentos amorosos. Está presente em amizades, relações familiares, relações profissionais e até no convívio social mais amplo — sempre que o afeto tem um papel importante.
Diversos autores que se debruçam sobre as relações humanas e os afetos destacam a responsabilidade afetiva como um elemento essencial para vínculos saudáveis. Bell Hooks, por exemplo, defende que o amor verdadeiro só pode existir quando há compromisso ético, cuidado e respeito mútuo. Silvia Congost enfatiza que ser responsável afetivamente é não alimentar ilusões nem vínculos baseados na falta de clareza emocional. Já o psicanalista Contardo Calligaris sublinha a importância de não prometer afetos que não se pode ou pretende cumprir, relacionando responsabilidade afetiva à honestidade emocional. Por sua vez, Eugenio Mussak associa essa postura à maturidade emocional, destacando que a verdadeira responsabilidade está em reconhecer que o outro sente — e que nossas ações têm impacto direto nos seus sentimentos. Em comum, todos reforçam que a responsabilidade afetiva não é sobre perfeição, mas sobre presença consciente, escuta ativa e integridade nas relações.
“Responsabilidade afetiva é cuidar do que se cria no outro.”
